Teorema homicida - Maria Luiza - AOE
Posted: 08 Feb 2010 09:30 AM PST
Juro que tento ser meiga, doce, pura, casta, delicada, amorosa, paciente… Juro que tento ser uma pessoa virtuosa. Mas tento mesmo, tento com todas as forças que a minha preguiça me permite. Sim, preciso da permissão da minha preguiça. Você precisa da permissão da sua mãe pra comprar pão na esquina, e ai? E a minha santa mãezinha tem uma pergunta recorrente: “por que você é tão grossa, Maria?”. Confesso que essa pergunta sempre me provoca uma incontrolável vontade de rir que eu acabo controlando para não despertar a fúria matriarcal. Confesso também que esse início de 2010 me deixou um tanto mais agressiva. Prova de que as minhas promessas de fim de ano foram para a casa do caralho mais uma vez. Tudo bem, isso acontece desde que eu comecei a fazer promessas de fim de ano. Com 7 anos prometi que não puxaria mais o pinto dos garotos na escola, não cumpri. Aos 13 prometi não mais gastar o dinheiro do lanche com pornografia. Com 15 prometi parar de fumar. Com 19 disse que não treparia mais com desconhecidos. Agora com 22 prometi que seria uma pessoa gentil e amável com as pessoinhas… Doce ilusão, o ano começou e continuo tão delicada quanto uma britadeira. O mais legal é que entra ano e sai ano e a minha mãe continua com a mesma pergunta.
Ok, nunca me importei com isso. Não sou a “caraquegarotagenteboa” e nem pretendo ser. Sempre gostei de ser chata, pessimista, desajustada do contra, antissocial metida a besta. Sempre adorei saber o que as pessoas falavam de mim pelas costas. Já ouvi coisas lindas como: “você não vale nada”, “você é desprezível”, “eu te odeio”, “é de comer beijando”. O que soa como ofensa para muitas pessoas me parece tão excitante mas o meu masoquismo é uma questão beeem mais profunda, entendeu? Ham? Ham? O fato é que isso tem se agravado. Até bem pouco tempo atrás eu tinha um senso de respeito até justo. Sabia que não era legal fazer piada com algumas pessoas por alguns motivos e bla. Depois de alguns questionamentos cheguei à conclusão de que a essência do deboche é uma coisa que sobrepuja essas classificações por idade, classe social, raça, condições físicas e todas as outras coisas que acabam tolhendo a possibilidade de uma excelente piada escrota. Resultado: o meu já capenga senso de respeito virou poeira. Cai na bobagem de falar isso para uma pessoa sem compreensão e fui chamada de psicopata, doente que precisa de tratamento. Fala sério, ninguém nunca sentiu vontade de chutar uma criança? Será que todo mundo acha fofinha aquela coisinha babando e gritando e fedendo a leite pobre? Não tenho instinto maternal, não quero ser mãe, não quero ter uma família feliz, não quero chegar aos 40 anos. E ninguém pode saber disso, tenho que guardar essa violência aqui, na boca do estômago. E me pergunto por quê. E surge o clichê: vivemos em sociedade e temos que respeitar uns aos outros. Uhum, muito empolgante. Não posso matar atendendes do Bob’s. Não posso incendiar ônibus. Não posso roubar carros. Pensando bem, passar um tempo numa penitenciária não é má idéia e que mamãe não fique sabendo. Ou que saiba de uma vez e desista, não vou ser uma juiza respeitada nem uma bem feitora, nunca quis salvar o mundo. Adoro acreditar que o mundo se autodestruirá. Adoro poluição, asfalto, concreto, banheiros de boteco, esquinas escuras. Adoraria o inferno se ele existisse.
Ah, mas temos que fazer o bem para tornar esse mundo um lugar menos ruim. Temos que ajudar os famintos da Somália e lutar contra a corrupção. Já fui uma idealista. Já achei que poderia começar uma revolução que tornaria o planeta um lugar menos desigual. Mais uma doce ilusão. A merda é bem maior do que nós imaginamos e não serei eu quem vai mudar a situação. Aprendi a amar o caos. Hoje desejo o caos. É tão chato quando as coisas dão certo. Não vou cansar a minha beleza lutando contra a estupidez. Não quero vencê-los nem me juntar a eles. O bom é ficar de fora torcendo para que a bomba exploda de uma vez para vir outro senhor da guerra e coloque outra bomba e outra e outra. Já temos muitos tratados de paz. “E a vida humana, Maria?”. Existe coisa mais insignificante que a vida humana? Pensemos um pouco… Não, não existe. O homem é o que de pior existe na humanidade. Sei, Jesus foi um filho da puta de muita sorte. Eu sou uma filha da puta sem sorte alguma, pra que tentar mudar isso? Não tenho vocação pra mártir mas tenho que pagar o preço alto por isso. Todo mundo paga um preço alto por alguma coisa. São tempos complicados. O aborto é uma patologia social e a “bolsa estupro” é a cura, ser estuprada e engravidar do estuprador é um ótimo negócio. O seu corpo é propriedade do Estado e o Estado não quer que você fume maconha. Não, você não tem liberdade de expressão e os direitos humanos valorizam mais as vacas. Indústria não é assassinato. Dizem que a minha revolta não tem causa. Dizem que eu poderia canalizar a minha raiva para produzir algo produtivo. Mostrar os peitos que é produtivo. Quero mais é me dar bem e o resto que se dane. Tenho um tesão desgraçado pelo meu pai e daria pra ele se ele não fosse um moralista sem graça. A minha falta de escrúpulos incomoda o pessoal. Dizem que eu preciso de PRINCÍPIOS. Palavra estranha, essa. Parece um princípio comum a todos esse da valorização da vida humana. É uma coisa até bonita. Seria legal se deixasse de ser teoria. Querem de toda forma preservar a vida mas depois que você nasce, você está sozinho, camarada! Toda a balela de pró-vida fica nos discursos da Xuxa. Você não é importante. Eu não sou importante.
Lembrei agora do filme Assassinos por Natureza. Lembrei de toda aquela podridão midiática, daquela fascinação do casal Mickey e Mallory pela violência que acabou me reportando ao moço lá do Laranja Mecânica. O que me deixou feliz agora foi lembrar da fala do Mickey que agora faz muito sentido: ” I’m a natural born killer”. É pouco provável que eu ache um namoradinho disposto a sair matando pessoas por ai. Eu dificilmente tirarei a minha bunda da cadeira para descarregar armas em cabeças por ai, mesmo achando por demais tentador. Pior que um egocêntrico é um egocêntrico preguiçoso sem nada pra fazer. Definitivamente, não sou virtuosa. Não gosto de flores e continuo com vontade de chutar uma criança. Morte aos defensores dos direitos humanos. Tem sempre alguém matando alguma coisa de alguma forma. Pureza é uma coisa que se encontra no supermercado.
Tenho pensado muito no futuro mas sempre no meio dos meus inocentes planos surgem pênis de 32 centímetros. Como eu sei que eles têm 32 centímetros? Eles aparecem ao lado de fitas métricas. Estranho!

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